As “três buscas pelo Jesus histórico” são um esquema historiográfico para organizar fases de pesquisa acadêmica sobre Jesus de Nazaré usando métodos histórico críticos. É um mapa útil, mas não perfeito: estudiosos lembram que a realidade foi mais contínua do que o rótulo sugere, e às vezes aparece até a expressão “nenhuma busca” para descrever o intervalo entre fases.
Primeira busca pelo Jesus histórico
Período aproximado: do Iluminismo e século XIX até o começo do século XX, com encerramento simbólico na crítica de Albert Schweitzer.
O impulso inicial foi reagir à figura dogmática do “Cristo da fé” e reconstruir uma biografia histórica de Jesus com base em critérios de razão e crítica textual. Uma característica recorrente dessa fase foi produzir “vidas de Jesus” que, muitas vezes, refletiam os ideais modernos do autor, algo que Schweitzer atacou frontalmente.
Autores relevantes frequentemente associados a essa fase:
- John Toland (1670 a 1722), um dos pioneiros do impulso racionalista em direção a uma leitura histórica de Jesus.
- Hermann Samuel Reimarus (1694 a 1768), frequentemente tratado como o grande iniciador da fase, por defender um Jesus mais político e por atribuir a origem da ressurreição à ação posterior dos discípulos; seus textos circularam em fragmentos publicados após sua morte.
- David Friedrich Strauss (1808 a 1874), que aplicou análise crítica à narrativa evangélica e popularizou a leitura de elementos como “mito” no sentido crítico do século XIX.
- Ernest Renan (1823 a 1892), representante do gênero “vida de Jesus” com forte marca literária e cultural, típico da fase.
- William Wrede (1859 a 1906), importante pela crítica do “segredo messiânico” em Marcos e por questionar leituras biográficas ingênuas dos evangelhos.
- Albert Schweitzer (1875 a 1965), cuja obra de 1906, conhecida em inglês como The Quest of the Historical Jesus, é o marco que expõe limites e ilusões da primeira fase e enfatiza o caráter apocalíptico e escatológico de Jesus nas fontes.
Observação importante: às vezes se diz que a primeira fase “começa no século XVII”; em outras reconstruções, ela é situada mais diretamente a partir do Iluminismo. O ponto é que ela amadurece no século XIX e recebe a crítica decisiva de Schweitzer no início do século XX.
Intervalo entre buscas
Período aproximado: do começo do século XX até a década de 1950.
É comum descrever esse intervalo como retração da pesquisa biográfica direta sobre Jesus, com foco maior em crítica de formas, tradição e teologia do Novo Testamento.
O nome mais associado ao clima intelectual do período é Rudolf Bultmann (1884 a 1976), cuja influência ajudou a deslocar a atenção para o “Cristo pregado” e para a interpretação existencial dos textos, reduzindo o entusiasmo por reconstruções históricas detalhadas de Jesus.
Segunda busca pelo Jesus histórico
Período aproximado: década de 1950 até o fim da década de 1960 ou início da década de 1970.
O início clássico é a palestra de Ernst Käsemann em 20 de outubro de 1953, “O problema do Jesus histórico”, frequentemente tratada como gatilho do que também recebeu o nome de “Nova Busca”. A ideia foi reabrir a investigação histórica sem abandonar a consciência crítica sobre as camadas teológicas dos evangelhos, usando critérios de autenticidade e tentando distinguir tradição primitiva de elaboração comunitária.
Autores relevantes frequentemente associados a essa fase:
- Ernst Käsemann (1906 a 1998), figura de arranque da fase.
- Günther Bornkamm (1905 a 1990), com trabalhos influentes sobre Jesus dentro de uma moldura histórico crítica pós bultmanniana.
- Joachim Jeremias (1900 a 1979), especialmente importante por pesquisas sobre contexto judaico, aramaísmos e parábolas.
- James M. Robinson (1924 a 2016) e outros nomes associados ao esforço metodológico de critérios de autenticidade e reconstruções mais comedidas.
Muitos relatos situam o enfraquecimento da segunda fase no começo da década de 1970, quando a centralidade da agenda bultmanniana e do existencialismo diminuiu e novas abordagens ganharam espaço.
Terceira busca pelo Jesus histórico
Período aproximado: do fim da década de 1970 e década de 1980 em diante.
Uma forma muito citada de localizar o “reacendimento” é a influência de Edward Parish Sanders com Paul and Palestinian Judaism (1977), e a expressão “terceira busca” é associada a Nicholas Thomas Wright como rótulo para a nova onda de pesquisas.
Traço marcante: forte ênfase no judaísmo do Segundo Templo e no contexto palestino, com uso muito mais intenso de arqueologia, fontes judaicas antigas e ciências sociais, frequentemente rejeitando a tentativa anterior de isolar Jesus por “dissimilaridade” em relação ao judaísmo e ao cristianismo primitivo.
James Dunn descreve o traço distintivo como recolocar Jesus no contexto do judaísmo, não procurar apenas o que o “distingue” dele.
Autores relevantes frequentemente associados a essa fase:
- P. Sanders (1937–2022)
Edward Parish Sanders foi um dos nomes mais influentes da pesquisa do Jesus histórico no final do século XX. Sua principal contribuição consistiu em recolocar Jesus firmemente dentro do judaísmo do Segundo Templo, rompendo com leituras anacrônicas que opunham Jesus ao judaísmo como se este fosse meramente legalista. Sanders argumentou que o judaísmo do período operava segundo um padrão que ele denominou nomismo pactual, no qual a Lei funcionava dentro de uma relação de aliança já estabelecida.
Essa reconfiguração teve impacto direto na compreensão da mensagem de Jesus, especialmente de seus gestos simbólicos e de sua relação com o Templo. Seu trabalho influenciou não apenas a pesquisa do Jesus histórico, mas também a chamada Nova Perspectiva sobre Paulo, redefinindo pressupostos metodológicos amplamente aceitos.
- Géza Vermes (1924–2013)
Géza Vermes foi decisivo para a leitura de Jesus como judeu carismático inserido no ambiente religioso palestino do primeiro século. Seu trabalho destacou paralelos entre Jesus e figuras carismáticas judaicas conhecidas por meio de fontes rabínicas e textos do judaísmo antigo.
Vermes rejeitou tanto leituras dogmáticas quanto reconstruções excessivamente céticas, buscando uma abordagem histórica que respeitasse o contexto cultural e linguístico de Jesus.
Ele contribuiu para deslocar o foco da pesquisa da cristologia dogmática posterior para a atuação concreta de Jesus como mestre, curandeiro e profeta dentro do judaísmo vivo de sua época.
- John P. Meier (1942–2022)
John Paul Meier é amplamente reconhecido por seu projeto monumental A Marginal Jew, uma das tentativas mais extensas e metodologicamente rigorosas de reconstrução do Jesus histórico. Meier adotou deliberadamente uma postura metodológica minimalista, perguntando o que poderia ser afirmado sobre Jesus se apenas critérios históricos amplamente aceitos fossem utilizados.
Ele enfatizou critérios como múltipla atestação, descontinuidade e plausibilidade contextual, sem recorrer a compromissos confessionais explícitos. Sua obra tornou-se referência obrigatória, inclusive para críticos, por sua transparência metodológica e pelo esforço em separar cuidadosamente história e teologia.
- T. Wright (1948– )
Nicholas Thomas Wright é uma das figuras mais proeminentes da pesquisa contemporânea sobre Jesus. Ele desempenhou papel central na consolidação do que passou a ser chamado de terceira busca pelo Jesus histórico, caracterizada pela integração entre história, teologia e contexto judaico. Wright defendeu que Jesus deve ser compreendido como profeta escatológico que reinterpretou as esperanças de Israel em torno do Reino de Deus, do exílio e da restauração.
Sua abordagem destaca narrativas amplas, símbolos e expectativas coletivas, evitando reducionismos sociológicos ou puramente críticos. Diferentemente de abordagens mais fragmentárias, Wright propõe sínteses históricas de grande alcance, que dialogam diretamente com a fé cristã primitiva.
- James D. G. Dunn (1939–2020)
James Dunn exerceu influência decisiva tanto na pesquisa do Jesus histórico quanto nos debates metodológicos sobre tradição e memória. Ele foi um dos principais críticos do uso excessivamente rígido dos chamados critérios de autenticidade, argumentando que eles não refletem adequadamente a natureza da tradição oral no mundo antigo.
Dunn introduziu a noção de memória social como categoria interpretativa, defendendo que as tradições sobre Jesus preservam um núcleo histórico confiável, ainda que moldado por processos comunitários. Sua contribuição ajudou a deslocar o debate do ceticismo extremo para uma compreensão mais realista da transmissão de tradições.
- Marcus Borg (1942–2015)
Marcus Borg tornou-se conhecido por retratos de Jesus que enfatizam dimensões sociológicas, espirituais e simbólicas. Associado ao Jesus Seminar, Borg apresentou Jesus como figura de profunda consciência espiritual e crítico das estruturas sociais de seu tempo.
Embora suas reconstruções tenham sido alvo de críticas por parte de historiadores mais conservadores, ele exerceu grande influência no debate público e acadêmico ao tornar a pesquisa do Jesus histórico acessível a um público mais amplo. Borg ajudou a popularizar a ideia de múltiplas imagens históricas de Jesus coexistindo no debate acadêmico.
- John Dominic Crossan (1934– )
John Dominic Crossan é uma das figuras mais controversas da pesquisa do Jesus histórico. Seu método combina crítica de fontes, estratificação textual e modelos sociológicos inspirados em antropologia cultural. Crossan propôs reconstruções que frequentemente minimizam elementos sobrenaturais e enfatizam Jesus como sábio cínico ou reformador social radical.
Embora suas conclusões sejam amplamente debatidas e criticadas, seu trabalho é levado a sério por forçar o campo a explicitar pressupostos metodológicos e limites interpretativos. Ele representa uma vertente mais radical dentro da terceira busca.
- Gerd Theissen (1943– )
Gerd Theissen destacou-se por abordagens socio-históricas sofisticadas, que analisam Jesus e o cristianismo primitivo à luz de estruturas sociais, econômicas e políticas do mundo antigo. Ele propôs modelos que buscam equilibrar plausibilidade histórica e sensibilidade literária, evitando tanto o ceticismo extremo quanto reconstruções apologéticas.
Theissen também contribuiu para a reflexão metodológica, discutindo como hipóteses históricas podem ser avaliadas em termos de coerência e poder explicativo.
- Ben F. Meyer (1927–1995)
Benjamin Franklin Meyer é frequentemente citado como uma figura de transição entre abordagens históricas clássicas e reflexões metodológicas mais profundas. Seu trabalho enfatizou a importância da hermenêutica histórica, argumentando que toda investigação do Jesus histórico envolve pressupostos interpretativos inevitáveis.
Meyer buscou integrar filosofia da história, crítica bíblica e teologia, influenciando autores posteriores que passaram a tratar com mais cuidado as bases epistemológicas da pesquisa histórica.
- Anthony E. Harvey (1930–2018)
Anthony Ernest Harvey contribuiu para a pesquisa do Novo Testamento e da cristologia com análises exegéticas cuidadosas e atenção à continuidade entre Jesus e a fé cristã primitiva.
Embora menos citado em listas populares, aparece em discussões especializadas por sua tentativa de equilibrar rigor histórico e reflexão teológica, sem recorrer a reducionismos. Seu trabalho ilustra como o “núcleo” da terceira busca varia conforme os critérios adotados por cada historiador.
LEITURA RECOMENDADA
BRITANNICA, The Editors of Encyclopaedia. Albert Schweitzer. Encyclopædia Britannica. Disponível em: https://www.britannica.com/biography/Albert-Schweitzer.
SCHWEITZER, Albert. The Quest of the Historical Jesus: A Critical Study of Its Progress from Reimarus to Wrede. Baltimore; London: Johns Hopkins University Press in association with the Albert Schweitzer Institute, 1998.
UNIVERSITÉ DE LA PRESSE. Who really was Jesus of Nazareth? The never-ending quest for the historical Jesus. Le Monde (edição em inglês), 25 dez. 2024. Disponível em: https://www.lemonde.fr/en/opinion/article/2024/12/25/who-really-was-jesus-of-nazareth-the-never-ending-quest-for-the-historical-jesus_6736432_23.html.
WIKIPEDIA CONTRIBUTORS. Quest for the historical Jesus. In: Wikipedia: The Free Encyclopedia. [S.l.]: Wikimedia Foundation, 29 jan. 2026. Disponível em: https://en.wikipedia.org/w/index.php?title=Quest_for_the_historical_Jesus&oldid=1335489906.

