O Argumento Ontológico é uma tentativa de demonstrar a existência de Deus a partir do próprio conceito de Deus, sem recorrer a observação do mundo. Ele nasce no século XI com Anselmo de Cantuária, que viveu aproximadamente de 1033 a 1109, e que escreveu o Proslogion por volta de 1077 a 1078, onde apresenta o núcleo do raciocínio nos capítulos dois e três.
A versão contemporânea mais discutida, associada a Alvin Plantinga no século XX, reformula o argumento com ferramentas da lógica modal e com a noção de mundos possíveis, especialmente em The Nature of Necessity, publicado em 1974. William Lane Craig, mais recentemente, defende sobretudo essa forma plantinguiana como a variante com maior chance de ser cogente, ainda que reconheça que a disputa real recai sobre a premissa de possibilidade.
- É possível que exista um ser maximamente grande.
- Se é possível que exista um ser maximamente grande, então existe um mundo possível em que esse ser existe.
- Se um ser maximamente grande existe em algum mundo possível, então ele existe em todo mundo possível, porque grandeza máxima inclui existência necessária.
- Se ele existe em todo mundo possível, então ele existe no mundo atual.
- Portanto, existe um ser maximamente grande, isto é, Deus existe.
O que significa “ser maximamente grande” precisa ser dito com precisão, porque aqui está o motor do argumento. Plantinga distingue grandeza de excelência: excelência máxima é ter, em um mundo possível, atributos como onipotência, onisciência e perfeição moral; grandeza máxima é ter excelência máxima em todo mundo possível, isto é, existir necessariamente e possuir esses atributos em qualquer mundo possível em que exista algo.
Essa definição é construída para evitar o erro clássico que Immanuel Kant atribuiu a certas versões do argumento, quando se tenta tratar “existir” como um predicado comum que aumenta uma lista de propriedades do mesmo modo que “vermelho” ou “alto”. A variante modal não depende de tratar existência como predicado desse tipo; ela depende de tratar existência necessária como um traço que, se instanciado, não pode falhar em nenhum mundo possível.
A forma anselmiana do Proslogion opera com outra linguagem, a famosa expressão “aquilo maior do que o qual nada pode ser pensado” e a passagem do existir no entendimento para o existir na realidade. O capítulo três adiciona a tese de que Deus não pode sequer ser pensado como não existente, isto é, Deus teria um modo de existência que não pode falhar.
O que Plantinga faz é traduzir o impulso do capítulo três para um quadro formal: em vez de “não pode ser pensado como não existente”, usa “existência necessária em todos os mundos possíveis”.
A defesa do argumento, portanto, não depende de repetir que ele é elegante. Depende de mostrar duas coisas. Primeiro, que a passagem de 2 a 5 é válida dentro de um sistema padrão da lógica modal. Segundo, que a premissa 1 é razoável, isto é, que o conceito de ser maximamente grande é coerente, não contém contradição disfarçada.
A validade formal da passagem é bem conhecida: em sistemas modais fortes, especialmente o sistema S5 da lógica modal, se algo é possível de modo metafísico e implica existência necessária, então segue que existe de modo necessário. O argumento se apoia nessa ponte porque grandeza máxima inclui necessidade. Por isso, quem quer rejeitar o argumento quase sempre tenta rejeitar a premissa 1, não a inferência.
A premissa 1, então, precisa de defesa. A defesa mais sóbria não tenta “provar” possibilidade por dedução, porque possibilidade metafísica raramente é provada assim. A defesa tenta mostrar coerência. Se “ser maximamente grande” significasse, por exemplo, “pode criar uma pedra tão pesada que nem ele consegue levantar”, haveria contradição interna e a possibilidade cairia. Mas a tradição clássica trata onipotência como poder para realizar tudo o que é logicamente possível, e isso remove pseudo tarefas autocontraditórias.
A mesma estratégia vale para onisciência e perfeição moral, entendidas sem paradoxos performativos. O ponto é: se não há contradição explícita ou implícita nos atributos centrais, a possibilidade não é uma concessão irracional; ela é um juízo modal comum, semelhante aos que sustentam muitas teses em metafísica. Plantinga, em seus textos, é conhecido exatamente por usar esse estilo de avaliação de coerência como suficiente para a aceitabilidade racional da premissa, mesmo reconhecendo que ela é a parte discutível para quem não compartilha desse juízo modal.
Agora entram as paródias, e elas precisam ser enfrentadas com rigor porque, historicamente, elas foram a resposta imediata ao Proslogion. Gaunilo de Marmoutiers, um monge beneditino contemporâneo de Anselmo no século XI, escreve In Behalf of the Fool e apresenta a paródia mais famosa, a da “ilha perfeita” ou “ilha perdida”, tentando mostrar que o mesmo tipo de raciocínio provaria a existência de coisas obviamente inexistentes. Se se pode definir “a ilha maior do que a qual nenhuma pode ser pensada”, então, diz a paródia, ela teria de existir, porque existir seria melhor do que existir apenas no entendimento.
A resposta correta a Gaunilo tem duas camadas, uma ligada a Anselmo e outra ligada ao refinamento moderno do argumento.
A primeira camada é conceitual: a paródia só funciona se o conceito em jogo for do tipo “máximo” coerente e completável. “Ilha perfeita” não é do mesmo tipo de conceito que “ser maximamente grande”.
Uma ilha é uma entidade contingente, composta, delimitada por características que admitem variação aditiva sem teto claro: sempre é possível imaginar mais palmeiras, mais praias, mais recursos, mais beleza, mais qualquer atributo que alguém valorize, e isso impede que exista um máximo intrínseco bem definido. Se não existe um máximo coerente, a expressão “a maior ilha concebível” não fixa um objeto determinável.
Por isso, a paródia não espelha o caso de Deus, que, no argumento, é definido por propriedades de máximo absoluto, como onipotência e existência necessária, que não admitem aumento por adição do mesmo modo que “mais areia” ou “mais coqueiros”.
A segunda camada é modal e é a que fecha a porta para paródias em geral. O argumento moderno não diz “existir é maior do que não existir”, e sim “existência necessária é uma perfeição”, isto é, se um ser tem grandeza máxima, ele não pode ser apenas contingente. Uma ilha, por sua natureza, não é candidata a existência necessária. Mesmo que uma ilha existisse, ela poderia não existir.
Logo, “ilha necessária” é uma combinação que, no mínimo, não é sustentada pela própria ideia de ilha, e por isso não pode ser forçada pela lógica. Essa é precisamente a intuição que aparece em discussões modernas sobre por que paródias ao estilo de Gaunilo não atingem a versão de Plantinga: a classe de objetos para os quais “existência necessária” faz sentido não inclui objetos contingentes como ilhas.
É importante notar uma coisa: nem toda paródia é inútil. Paródias servem para lembrar que um argumento ontológico não pode ser um esquema formal que transforma qualquer definição em existência. Se alguém conseguisse construir um “ser maximamente grande malévolo” com a mesma estrutura, isso exporia um problema: a premissa de possibilidade teria de falhar para um dos lados. E isso leva ao ponto mais delicado do debate contemporâneo: a simetria aparente.
A objeção de simetria diz: se é possível um ser maximamente grande existir, então ele existe; mas também parece possível que não exista um ser maximamente grande; então a conclusão vira um impasse. Esse tipo de objeção aparece com frequência nas discussões modernas justamente porque o argumento joga toda a força na avaliação modal. A resposta não é fingir que não há custo.
A resposta é esta: “é possível que não exista um ser maximamente grande” não é uma possibilidade simples, porque, se grandeza máxima inclui existência necessária, então “não existe” equivale a “é impossível que exista”. A disputa real, portanto, não é entre duas possibilidades igualmente inocentes; é entre “o conceito é coerente e pode ser instanciado” e “o conceito é incoerente ou não pode ser instanciado em nenhum mundo possível”.
O argumento não obriga aceitar a primeira opção, mas obriga reconhecer que a negativa é mais pesada do que parece: negar a premissa 1, nesse enquadramento, é assumir que a ideia de ser maximamente grande é impossível, não apenas contingentemente ausente.
Outra crítica famosa, embora não seja uma paródia, é a crítica de que o argumento apenas “define Deus para dentro da existência”. Aqui a resposta precisa ser precisa: definições não criam realidade, mas podem revelar implicações do que já se assume possível.
O argumento não diz: “defina X, logo X existe”. Ele diz: “se é possível que exista algo cuja essência inclui existência necessária, então essa coisa existe”. Isso é um princípio modal geral, não um truque de definição. O trabalho pesado está todo em justificar que a essência em questão é coerente e pode ser instanciada.
Por fim, vale amarrar a relação entre Anselmo, Plantinga e o uso apologético recente. Anselmo oferece a intuição de que Deus, entendido como máximo absoluto, não pode ser apenas um pensamento. Gaunilo força a distinguir Deus de máximos contingentes, como ilhas.
Plantinga fornece uma reconstrução formal em mundos possíveis que bloqueia grande parte das paródias, porque desloca o foco para existência necessária e para a plausibilidade da premissa de possibilidade.
Craig, ao defender o argumento, normalmente insiste que ele não é um “martelo universal” que converte todo interlocutor, mas que, para quem considera a premissa 1 razoável, a conclusão segue com força dedutiva e funciona como argumento a favor da racionalidade do teísmo.
LEITURA RECOMENDADA
ANSELMO DE CANTUÁRIA. Proslogion. Tradução inglesa. New York: Fordham University, Medieval Sourcebook. Disponível em: https://sourcebooks.web.fordham.edu/basis/anselm-proslogium.asp.
BIOLA UNIVERSITY. Bizarro Ontological Arguments. The Good Book Blog, 2014. Disponível em: https://www.biola.edu/blogs/good-book-blog/2014/bizarro-ontological-arguments.
CRAIG, William Lane. Reasonable Faith. 3. ed. Wheaton: Crossway, 2008. Disponível em: https://antilogicalism.com/wp-content/uploads/2023/03/craig-reasonable-faith.pdf.
INTERNET ENCYCLOPEDIA OF PHILOSOPHY. Anselm’s Ontological Argument. Disponível em: https://iep.utm.edu/anselm-ontological-argument/.
STANFORD ENCYCLOPEDIA OF PHILOSOPHY. Ontological Arguments. Stanford: Metaphysics Research Lab, Stanford University. Disponível em: https://plato.stanford.edu/entries/ontological-arguments/.

