Argumento Evolucionário Contra o Naturalismo

O Argumento Evolucionário contra o Naturalismo de Alvin Plantinga tenta mostrar uma tensão interna entre duas teses quando elas são sustentadas ao mesmo tempo. A primeira tese é o naturalismo filosófico, entendido como a visão de que não existe Deus nem nada parecido com Deus. A segunda tese é a evolução no sentido de descendência com modificação guiada por seleção natural e mecanismos correlatos, dentro do quadro científico contemporâneo.

A conclusão não é que evolução é falsa. A conclusão é que naturalismo e evolução, juntos, minam a confiança racional nas próprias faculdades cognitivas usadas para acreditar em qualquer coisa, inclusive no próprio naturalismo e na própria evolução.

Plantinga apresenta versões do argumento em Warrant and Proper Function, depois em ensaios como Naturalism Defeated e em desenvolvimentos posteriores.

 

  1. Se naturalismo e evolução são verdadeiros, então a probabilidade de que as faculdades cognitivas humanas sejam amplamente confiáveis é baixa, ou é inescrutável.
  2. Se alguém reconhece que essa probabilidade é baixa ou inescrutável, então essa pessoa adquire um derrotador para a crença de que suas faculdades cognitivas são confiáveis.
  3. Se alguém tem um derrotador não derrotado para a confiabilidade de suas faculdades cognitivas, então essa pessoa tem um derrotador para qualquer crença produzida por essas faculdades, incluindo a crença em naturalismo e em evolução.
  4. Portanto, naturalismo e evolução juntos são epistemicamente autodestrutivos, no sentido de que não podem ser racionalmente afirmados por quem entende o que eles implicam.

 

O núcleo do argumento está na primeira premissa, e ele precisa ser defendido com cuidado, porque é ali que críticos tentam cortar o raciocínio. A intuição básica é simples: seleção natural seleciona por comportamento adaptativo, não por crença verdadeira.

Crenças entram no jogo evolutivo apenas indiretamente, na medida em que contribuem para comportamento que aumenta sobrevivência e reprodução. Se a sobrevivência pode ser alcançada por muitas combinações de crenças verdadeiras, crenças falsas e estados não proposicionais, então não há uma conexão firme entre adaptação e verdade.

Plantinga insiste que, sob naturalismo, o quadro metafísico torna essa desconexão especialmente aguda, porque não existe um planejador que tenha como objetivo a formação de crenças verdadeiras.

Para tornar isso mais do que uma frase de efeito, Plantinga explora cenários em que o comportamento é adaptativo apesar de o conteúdo das crenças ser largamente falso, desde que as crenças, junto com desejos, produzam a ação correta. Um exemplo típico na literatura sobre o argumento é este tipo de estrutura: um organismo corre ao ver um predador.

O comportamento é adaptativo. Mas o conteúdo que causou o comportamento pode ser “aquele animal é um bom amigo e quero abraçá-lo” combinado com “para abraçar, corra para longe” ou outras combinações estranhas. O ponto não é que isso descreva psicologia realista do cotidiano.

O ponto é que, se conteúdo proposicional não é o que a seleção rastreia, então existe um espaço lógico grande de mapeamentos entre conteúdo e comportamento, e muitos desses mapeamentos preservam adaptação sem preservar verdade.

O argumento ganha força quando Plantinga acrescenta uma preocupação com o papel causal do conteúdo. Se naturalismo é combinado com certas formas de fisicalismo, o que faz o trabalho causal são propriedades neurofisiológicas, enquanto o conteúdo pode ser causalmente inerte, ou pelo menos não claramente inserido na cadeia causal do comportamento.

Isso abre a porta para epifenomenalismo semântico, a ideia de que o conteúdo das crenças não participa do nexo causal que a seleção poderia moldar. Se o conteúdo não participa, então a seleção não tem como favorecer conteúdo verdadeiro em vez de conteúdo falso. Isso torna a confiabilidade ampla das faculdades cognitivas ainda mais improvável sob naturalismo com evolução.

É aqui que a primeira premissa deve ser entendida exatamente do modo como Plantinga a pretende: ele não precisa provar que a probabilidade de confiabilidade é literalmente muito pequena em um número preciso. Ele precisa mostrar que, dadas as suposições, essa probabilidade é baixa ou pelo menos inescrutável, isto é, não há como ver por que seria alta. Se a probabilidade é inescrutável, isso já é suficiente para gerar o derrotador, porque a pessoa percebe que não tem base para confiar no mecanismo que produz suas crenças.

A segunda premissa introduz a peça propriamente epistemológica: derrotador. O raciocínio é que, se alguém passa a acreditar que suas faculdades cognitivas não são confiáveis, ou que é improvável que sejam confiáveis, essa pessoa tem uma razão para suspender confiança nelas. Plantinga articula isso dentro do vocabulário de garantia epistêmica e derrota, e comentadores como William Alston discutem em detalhe como essa transição de uma afirmação probabilística para um derrotador deve funcionar.

A terceira premissa é onde o argumento vira uma bomba lógica. Confiar em qualquer crença, inclusive crenças sobre naturalismo e sobre evolução, pressupõe algum nível de confiança na confiabilidade das faculdades cognitivas que produzem essas crenças.

Se essa confiança cai, cai junto a racionalidade de sustentar qualquer crença obtida por essas faculdades. Então, se naturalismo e evolução geram um derrotador para a confiabilidade, naturalismo e evolução geram um derrotador para si mesmos. Isso é o sentido preciso de “autodestrutivo”: não é uma contradição formal como “p e não p”, mas uma condição em que a crença elimina o próprio direito epistêmico de ser mantida.

Uma reação comum é dizer que a seleção natural favorece cérebros que acertam, porque crenças verdadeiras tendem a produzir comportamento adaptativo. A resposta de Plantinga é que essa passagem do “tende a” para “confiabilidade ampla” é o que está em disputa e não pode ser assumido sem argumento adicional.

Existem muitas maneiras de obter comportamento adaptativo sem um sistema que rastreia verdade de forma robusta, especialmente quando se considera crenças abstratas, metafísicas e científicas de alto nível, que não têm ligação direta com sobrevivência na savana.

A seleção pode favorecer mecanismos rápidos, heurísticos e enviesados desde que funcionem bem o suficiente. Isso é compatível com confiabilidade local em domínios práticos, mas não garante confiabilidade global.

Outra reação é afirmar que o argumento prova demais, pois pareceria que qualquer visão evolutiva levaria ao ceticismo. Plantinga rejeita isso. A tese dele é direcionada ao naturalismo, não à evolução como tal. Sob teísmo, por exemplo, existe uma intenção criadora de que as faculdades cognitivas sejam direcionadas à verdade, e isso fornece um tipo de ligação teleológica entre mente e mundo que o naturalismo não tem por princípio.

O argumento, portanto, não é antievolucionista. Ele é uma crítica ao casamento entre evolução e uma metafísica que não tem recursos fáceis para explicar por que deveríamos confiar em nossas faculdades cognitivas.

Críticos como Branden Fitelson e Elliott Sober atacam a parte probabilística, alegando que Plantinga não justifica adequadamente a avaliação de probabilidade e que há erros na formalização. A existência dessas críticas importa, porque força o argumento a ser apresentado com precisão e sem exageros. Plantinga responde enfatizando que a probabilidade relevante é condicional ao naturalismo e à evolução e que, mesmo quando não se consegue fixar um número, a inescrutabilidade já cumpre o papel de gerar o derrotador.

Defender arduamente o argumento, então, é sustentar três teses ao mesmo tempo. Primeiro, a seleção natural não seleciona diretamente por verdade, mas por comportamento

Segundo, sob naturalismo, especialmente com uma ontologia fisicalista, não há uma ponte clara que faça o conteúdo verdadeiro ser o motor causal selecionado.

Terceiro, reconhecer isso corrói a confiança racional nas próprias faculdades cognitivas, e isso corrói a racionalidade de aceitar naturalismo e evolução.

Quando essas três teses são mantidas, a conclusão segue: a pessoa que quer preservar evolução e preservar racionalidade tem motivo para abandonar naturalismo, não para abandonar evolução.

 

LEITURA RECOMENDADA

ANDERSON, Tina; HENDRICKS, Perry. Does the evolutionary argument against naturalism defeat God’s beliefs? Sophia, Dordrecht, v. 59, n. 3, p. 489–499, 2020.

CRAIG, William Lane. O argumento evolutivo de Plantinga contra o naturalismo. Reasonable Faith, Artigos, Pergunta da Semana, Q and A, 23 mar. 2021. Disponível em: https://pt.reasonablefaith.org/artigos/pergunta-da-semana/o-argumento-evolutivo-de-plantinga-contra-o-naturalismo.

CRAIG, William Lane. Resenha de Where the Conflict Really Lies: Science, Religion, and Naturalism, de Alvin Plantinga. Reasonable Faith, Artigos, Escritos Acadêmicos, 19 out. 2016. Disponível em: https://pt.reasonablefaith.org/artigos/escritos-academicos/resenha-de-emwhere-the-conflict-really-lies-science-religion-and-naturalism.

O’CONNOR, Timothy. An evolutionary argument against naturalism. Canadian Journal of Philosophy, Cambridge, v. 24, suppl. 1, p. 199–214, 1994.

PLANTINGA, Alvin. An evolutionary argument against naturalism. Logos: Anales del Seminario de Metafísica, Madrid, v. 12, p. 27–48, 1991.

PLANTINGA, Alvin. The evolutionary argument against naturalism: an initial statement of the argument. In: RUSE, Michael (org.). Philosophy after Darwin: classic and contemporary readings. Princeton: Princeton University Press, 2009. p. 341–353.

PLANTINGA, Alvin. The evolutionary argument against naturalism. In: STUMP, J. B.; PADGETT, Alan (org.). The Blackwell companion to science and Christianity. Oxford: Wiley-Blackwell, 2012. p. 103–115.

SOARES, Emerson Martins. Naturalismo, função própria e o argumento evolucionário contra o naturalismo. Contemplação, Marília, n. 11, p. 137–156, 2015.

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