Resumo
Textos como Josué 6:21 e 10:40, com sua linguagem de destruição total, suscitam a acusação de “genocídio divinamente sancionado”. Este estudo conduz uma investigação documental e comparativa em três eixos: (1) a hipótese interpretativa de que parte da linguagem de “aniquilação” em relatos de conquista pode funcionar como hipérbole literária de vitória completa, típica do Antigo Oriente Próximo; (2) a validação dessa hipótese por paralelos epigráficos e retóricos, com destaque para a Estela de Mesa, cujo registro totalizante convive com a continuidade histórica do povo supostamente “aniquilado”; (3) a análise filosófico-moral da objeção, com uso explícito da Teoria do Comando Divino defendida por William Lane Craig, incluindo a tese de que deveres morais são constituídos por comandos de um Deus essencialmente bom, e a conclusão de que, mesmo se certos episódios forem entendidos literalmente, Deus conserva prerrogativa própria de dar e tirar a vida. A tese central é metodológica e moral: a leitura responsável não deve dogmatizar a hipérbole como certeza absoluta, mas tratá-la como hipótese forte e verificável; e, independentemente da conclusão histórica final, a objeção moral pode ser enfrentada de forma coerente dentro do arcabouço do comando divino.
Palavras-chave: Josué; herem; hipérbole; Estela de Mesa; comando divino; William Lane Craig; Paul Copan.
- O problema: “genocídio” como categoria moderna e o risco do anacronismo
A palavra “genocídio” é um termo técnico moderno e carrega critérios jurídicos e históricos que não nascem do mundo antigo. Por isso, a pergunta sobre Josué precisa ser refinada: trata-se de avaliar (a) o que o texto afirma; (b) o que a linguagem de guerra do período costumava fazer como retórica; (c) se a acusação projeta sobre o texto um gênero documental que ele pode não pretender. Há estudos que chamam atenção para como a categoria “genocídio” é aplicada ao material bíblico em debates atuais, alertando para usos ideológicos e para o efeito retórico de “colagem” de uma categoria moderna sobre textos de outra matriz cultural.
Esse esclarecimento não minimiza a gravidade da linguagem. Ele só impede que o problema seja decidido por choque terminológico.
- A hipótese de hipérbole em Josué: forte, porém não automática
Uma linha interpretativa amplamente discutida, e defendida de modo sistemático por Paul Copan e Matthew Flannagan, sustenta que expressões de “destruição total” em Josué podem refletir convenções literárias e retóricas de relatos de conquista, em que “aniquilar todos” funciona como fórmula de vitória completa, sem exigir sempre leitura estatística e literal. Copan e Flannagan dedicam capítulos específicos à “interpretação hiperbólica” de Josué e às objeções internas contra ela, sinalizando que a hipótese deve ser testada, não decretada por conveniência.
A relevância do argumento de Copan não está em declarar o assunto encerrado, mas em colocar o leitor diante do método: comparar a linguagem bíblica com padrões literários próximos, observar tensões internas no corpus e resistir ao impulso de transformar fórmulas de guerra em atas notariais.
2.1. Um dado decisivo: a hipótese não é monopólio apologético
A hipótese de hipérbole não circula apenas em apologética popular. Trabalhos acadêmicos focados em Josué e no herem discutem o tema no nível da composição narrativa e de seu vocabulário, tratando explicitamente de como a linguagem de guerra funciona no texto e em sua recepção.
Esse ponto é importante por honestidade intelectual: há pesquisas que argumentam pela não hipérbole em certas seções, e há pesquisas que defendem leituras mais retóricas. Assim, o procedimento correto é manter a hipótese como hipótese, pesá-la, e então verificar qual leitura explica melhor o conjunto de evidências.
- O vocabulário do herem como pano de fundo do debate
O debate sobre “extermínio” em Josué quase sempre se cruza com o conceito de herem (ou cherem), termo hebraico ligado a “consagração sob banimento”, por vezes associado a destruição e por vezes a separação do uso comum para fins religiosos. A literatura de referência registra que o termo tem explicações diversas, incluindo interpretações que o entendem como forma de “devotar” algo a Deus, e outras que enfatizam destruição ou exclusão total do proveito humano.
Esse dado é relevante porque a acusação de genocídio costuma ignorar que o problema exegético não é apenas quantitativo (quantos morreram), mas semântico e teológico: qual é a função do herem no texto e qual sua relação com a ideia de juízo.
- Parâmetros comparativos: a Estela de Mesa e a retórica totalizante
Um dos paralelos extrabíblicos mais citados no debate sobre retórica de conquista é a Estela de Mesa (Mesha Stele), inscrição moabita que descreve vitória sobre Israel com linguagem totalizante e enumeração de grupos (homens, meninos, mulheres, meninas).
O ponto metodológico não é provar que Josué é hipérbole porque Mesha é hipérbole. O ponto é mais modesto e mais forte: a existência de padrões epigráficos do período que usam linguagem de aniquilação como estilo de propaganda régia torna plausível que fórmulas semelhantes, em textos próximos culturalmente, possam ter função literária de “vitória completa”.
Esse tipo de evidência comparativa não encerra o debate, mas altera a probabilidade inicial: ela torna intelectualmente irresponsável assumir, sem exame, que toda frase totalizante é estatística literal.
- Mesmo se literal: o eixo moral da Teoria do Comando Divino em William Lane Craig
A hipótese de hipérbole ajuda a lidar com o componente historiográfico e literário. Mas o núcleo da objeção muitas vezes é moral: ainda que o texto fosse literal, poderia ser justo?
Aqui entra a Teoria do Comando Divino, na forma defendida por William Lane Craig: valores morais objetivos se fundamentam na natureza de Deus, e deveres morais objetivos se constituem pelos comandos de Deus. Craig formula isso de modo explícito ao diferenciar o fundamento ontológico da obrigação moral da questão epistemológica de como conhecê-la.
Esse modelo também aparece em discussões filosóficas de referência sobre a teoria, que registram versões “modificadas” da Teoria do Comando Divino, destinadas a responder ao dilema do Eutífron, evitando arbitrariedade ao ancorar o bem no caráter divino e a obrigação nos comandos de Deus.
5.1. A objeção clássica e a resposta de Craig
Críticos do comando divino costumam levantar o cenário extremo: “e se Deus ordenasse algo horrível?” Em debate acadêmico, a resposta atribuída a Craig é que, na sua formulação, a obrigação moral é constituída pelos comandos de um Deus essencialmente justo e amoroso; portanto, comandos verdadeiramente divinos não seriam caprichos cruéis desconectados do bem.
Isso permite uma defesa mais precisa do ponto central solicitado: a moralidade não é um tribunal acima de Deus, diante do qual Deus se submete como réu. A justiça divina não é medida por um padrão externo superior; ela decorre do próprio ser divino, e a obrigação humana é resposta ao comando.
- A prerrogativa divina de dar e tirar a vida: conclusão dentro do arcabouço de Craig
Chega-se, então, à conclusão que precisa ser afirmada sem ambiguidade: mesmo que, em certos episódios, a linguagem de Josué descreva eventos literalmente severos, Deus conserva prerrogativa única sobre vida e morte. Essa prerrogativa decorre de duas premissas que Craig usa frequentemente em sua ética: (1) Deus é o fundamento do valor moral objetivo, pois sua natureza é o bem; (2) deveres morais objetivos surgem de seus comandos, não de preferências humanas ou convenções sociais.
Nesse enquadramento, a acusação de “genocídio divinamente sancionado”, quando usada como veredito automático, frequentemente opera como arma retórica e não como conclusão exegética ou filosófica, pois costuma ignorar as etapas mínimas do método: gênero literário, comparação epigráfica, semântica do herem e estrutura de uma teoria metaética coerente.
Leitura Recomendada
ANCIENT NEAR EAST TODAY. Genocide and the Hebrew Bible. ASOR, s.d. Disponível em: https://anetoday.org/genocide-hebrew-bible/. Acesso em: 09 fev. 2026.
BIBLICAL ARCHAEOLOGY SOCIETY. A New Reading: Translation of the Mesha Stela (tradução de André Lemaire). BAS Library, s.d. Disponível em: https://library.biblicalarchaeology.org/sidebar/a-new-reading-translation-of-the-mesha-stela/. Acesso em: 09 fev. 2026.
BIBLE HISTORY. The Mesha stele and the House of David. BibleHistory.net, s.d. Disponível em: https://www.biblehistory.net/mesha.html. Acesso em: 09 fev. 2026.
COPAN, Paul; FLANNAGAN, Matthew. Did God Really Command Genocide? Coming to Terms with the Justice of God. Grand Rapids: Baker Publishing Group, 2014. (Página com sumário e descrição). Disponível em: https://www.moralapologetics.com/did-god-really-command-genocide. Acesso em: 09 fev. 2026.
CRAIG, William Lane. Moral Duty without the Ten Commandments. Biola University, The Good Book Blog, 07 mar. 2014. Disponível em: https://www.biola.edu/blogs/good-book-blog/2014/moral-duty-without-the-ten-commandments. Acesso em: 09 fev. 2026.
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MORRISTON, Wes. Does God Ground Morality? (PDF). 2012. Disponível em: https://spot.colorado.edu/~morristo/DoesGodGround.pdf. Acesso em: 09 fev. 2026.
WEGMAN, Matthew. Joshua 6:15-21: Exploring the Deeper Meaning of the Herem. Verbum Incarnatum, 2006. Disponível em: https://fisherpub.sjf.edu/cgi/viewcontent.cgi?article=1062&context=verbum. Acesso em: 09 fev. 2026.

