Argumento Cosmológico Kalam

O Argumento Cosmológico Kalam nasce de uma controvérsia muito antiga: o mundo é eterno ou teve começo? No século VI, na Antiguidade Tardia, João Filópono criticou a tese filosófica da eternidade do mundo e atacou a possibilidade de um passado infinito de eventos reais, abrindo um caminho de argumentos contra uma regressão temporal sem início.

No século XI e início do século XII, Abū Ḥāmid al Ghazali, que viveu aproximadamente de 1056 a 1111 d.C., retoma essa disputa no interior do kalam, a teologia racional islâmica, contestando a ideia de um universo sem começo e defendendo a criação temporal.

A formulação contemporânea, em linguagem lógica enxuta e com diálogo explícito com cosmologia física, surge no final do século XX e se torna conhecida sobretudo após a defesa sistemática publicada em 1979. O nome de William Lane Craig aparece nesse contexto histórico.

Antes de numerar as premissas, é preciso tratar do pano de fundo mais ignorado e mais determinante: a teoria do tempo assumida. Há duas famílias clássicas.

A Teoria A do tempo entende que passado, presente e futuro são distinções objetivas e que há devir real, isto é, eventos realmente passam do futuro ao presente e ao passado.

A Teoria B do tempo entende que o tempo é uma ordem de antes e depois sem um presente objetivo que muda, de modo que o conjunto de eventos é descrito como fixo em relações de anterioridade e posterioridade. Essa distinção é associada a John McTaggart e às séries A e B, e é discutida na filosofia contemporânea do tempo.

A defesa do Kalam fica mais forte sob a Teoria A, também chamada de Teoria do Tempo Dinâmico, e não apenas por preferência psicológica. Ela fica mais forte porque o próprio conceito de uma série de eventos passados formada por adição sucessiva faz sentido literal sob a Teoria A.

Se o passado é algo que se acumula por ocorrência real de eventos, então o passado é como uma coleção concreta formada passo a passo, e é precisamente esse tipo de coleção que o argumento ataca quando discute infinito real no domínio temporal.

A Teoria B, ou Teoria do Tempo Estático, ao retratar todos os eventos como igualmente reais em um bloco, enfraquece o sentido de “formação por sucessão” e tende a transformar a discussão em uma descrição geométrica de relações, deslocando a questão da realização de um infinito por adição temporal. Ainda assim, a Teoria B não dissolve automaticamente o argumento, mas ela reduz a transparência da intuição central do Kalam. Por isso, a Teoria A é a melhor moldura para o argumento ser entendido no seu alvo real: o passado como história efetivamente ocorrida, não como mera ordenação abstrata.

A Teoria A também tem uma vantagem explicativa: ela torna inteligível a mudança como algo real, e não como mera variação de propriedades indexadas a tempos. A própria entrada do novo, a ocorrência de um evento, o começar a existir, são ideias naturalmente formuladas em uma metafísica com devir.

A Teoria B pode reconstruir isso com recursos técnicos, mas paga o preço de tratar o fluxo do tempo como aparência ou como aspecto dependente da mente, o que é filosoficamente custoso quando o argumento depende exatamente da noção de começo real. A filosofia do tempo registra que, para McTaggart, a série A era tomada como essencial ao tempo, em conexão com a ideia de mudança genuína.

Com isso estabelecido, o argumento pode ser apresentado com premissas e conclusão assim numeradas:

 

  1. Tudo o que começa a existir tem uma causa.
  2. O universo começou a existir.
  3. Portanto, o universo tem uma causa.

 

A primeira premissa afirma um princípio causal restrito: não diz que tudo tem causa, mas diz que aquilo que começa a existir tem causa. Essa restrição é crucial para evitar confusões baratas.

O que está em jogo é a inteligibilidade mínima da passagem do não ser ao ser. Se algo começa a existir e não tem causa, então a existência aparece sem qualquer base explicativa.

A forma mais forte de ataque à premissa tenta sugerir que “do nada” algo poderia surgir, mas essa expressão costuma esconder uma troca de assunto: nada absoluto não é vácuo físico, nem campo, nem leis, nem um estado anterior de energia, nem um cenário com estrutura matemática.

“Nada absoluto” é ausência de qualquer realidade. Se há leis, há algo; se há um campo quântico, há algo; se há uma estrutura física, há algo. A premissa diz que, quando há começo real, há dependência explicativa de algo que não é o próprio efeito.

A força racional da premissa não é mera indução a partir do cotidiano, embora a indução exista e seja relevante. É um princípio metafísico que impede que a existência vire um acidente sem regra no ponto mais profundo.

Se começo sem causa é possível, não existe critério interno que limite o tipo de coisa que pode surgir sem causa, nem o momento, nem o contexto. Isso não é um apelo emocional, é um diagnóstico: remover causalidade do começo é remover a conexão racional entre por que este estado do mundo é assim e não de outro modo.

A filosofia do argumento cosmológico, ao mapear variantes e objeções, registra como princípios de explicação e regressões são discutidos como parte da tradição inteira desses argumentos, e o Kalam é apresentado como uma variante específica que foca o regressus temporal.

A segunda premissa afirma que o universo começou a existir. Aqui, a defesa tradicional do Kalam opera em duas frentes, uma filosófica e outra físico cosmológica, e a convergência das duas é a força do caso.

A frente filosófica, em linha com Filópono e depois com al Ghazali, é uma crítica à possibilidade de um passado infinito de eventos reais. Há dois eixos. O primeiro eixo é a tese de que um infinito atual de coisas concretas é metafisicamente impossível.

O argumento não é que infinito seja impossível na matemática. O argumento é que um infinito atual, como coleção completa de entidades concretas, gera propriedades paradoxais quando aplicado ao real. A ilustração clássica é o Hotel de Hilbert, que mostra como um hotel com infinitos quartos pode estar cheio e ainda assim acomodar novos hóspedes ao rearranjar os ocupantes, e pode até acomodar infinitos novos hóspedes.

A lição não é que a matemática seja incoerente, e sim que a aplicação literal desse tipo de infinito a coleções concretas torna a contabilidade de partes e todo incompatível com práticas mínimas de explicação do mundo. A enciclopédia filosófica que discute o argumento cosmológico explicita que, na variante Kalam, a impossibilidade de uma regressão temporal infinita é ligada exatamente à rejeição de um infinito atual realizado.

O segundo eixo é ainda mais duro e depende diretamente da Teoria A do tempo: mesmo que alguém conceda, por hipótese, que um infinito atual pudesse existir, ainda assim um infinito de eventos passados não poderia ser formado por adição sucessiva.

O motivo é simples de formular, difícil de escapar: um processo de adição sucessiva sempre percorre eventos um por um; não importa quanto tempo se dê, não se completa uma sequência infinita por percorrer termos finitos em sucessão.

Se o presente foi alcançado por uma história real de ocorrências, então essa história não pode ter tamanho infinito, porque alcançar o presente exigiria que infinitos eventos já tivessem sido efetivamente concluídos.

Esse tipo de argumento é uma espécie de argumento contra regressão infinita aplicada ao tempo, e a literatura filosófica trata de como argumentos de regressão funcionam e de quando eles têm força.

A frente físico cosmológica não é apresentada como prova absoluta isolada, mas como reforço: modelos físicos importantes apontam para uma fronteira passada na descrição do espaço tempo.

Uma peça muito citada no debate é o resultado de Arvind Borde, Alan Guth e Alexander Vilenkin, segundo o qual uma região do espaço tempo que, em média, está em expansão ao longo de geodésicas não pode ser completa para o passado, exigindo alguma física adicional para descrever a fronteira passada.

O ponto central do resultado é a incompletude passada sob condições cinemáticas de expansão média positiva, não uma afirmação direta de criação a partir do nada. Isso é valioso exatamente porque pressiona a ideia de um passado físico infinito em cenários inflacionários típicos, mesmo quando se tenta evitar pressupostos fortes como certas condições de energia.

Quando as duas frentes são colocadas juntas, o caso para a segunda premissa ganha densidade.

Filosoficamente, um passado infinito de eventos reais é problemático por envolver infinito atual concreto e por exigir realização por adição sucessiva.

Fisicamente, descrições cosmológicas influentes sugerem que extrapolações de expansão para trás encontram limites, pedindo uma fronteira ou um complemento teórico.

Nenhuma dessas frentes, isoladamente, obriga todos os interlocutores. Juntas, elas tornam a negação da segunda premissa uma aposta cara: exige aceitar uma metafísica de infinito concreto no tempo e, ao mesmo tempo, sustentar um modelo físico com passado completo que evite as pressões conhecidas sobre completude passada.

Da conjunção das duas premissas segue a conclusão, e essa inferência é dedutiva: portanto, o universo tem uma causa. A questão então passa a ser o que se pode dizer dessa causa sem extrapolação indevida. O mínimo é claro. Se o universo inclui espaço e tempo físicos, e se ele começou a existir, a causa não pode ser uma entidade espaço temporal do mesmo tipo que os efeitos internos ao universo, porque isso a colocaria dentro do conjunto cujo começo precisa de explicação.

A causa, portanto, é transcendente ao espaço tempo físico no sentido de não depender dele para existir. Essa conclusão, como conclusão mínima, é uma consequência do próprio conteúdo da segunda premissa quando articulada com o significado de universo como totalidade do espaço tempo físico.

A partir daí, há um movimento argumentativo adicional, feito às vezes por Craig e por outros, de que a causa deve ser imaterial, extremamente poderosa e dotada de uma forma de agência, porque uma causa eterna produzindo um efeito temporal sugere uma explicação por escolha, não por mecanismo automático.

Esse passo exige cautela, mas é bastante defensável sob a Teoria A. Se o efeito tem começo real, e se a causa não é um estado físico antecedente no tempo, então a relação causal não é a mesma de causas internas ao universo.

Uma causa pessoal pode explicar por que o efeito começa sem exigir uma cadeia temporal anterior infinita: a ideia é que um agente pode ter poder causal sem estar preso a uma sequência temporal anterior de condições físicas, e pode trazer um efeito à existência sem que esse efeito seja eternamente coexistente com a causa.

Essa é a parte em que a Teoria A ajuda de novo: ela permite falar com seriedade de um momento de início, não apenas de uma fronteira descrita sem o tempo dinâmico, e faz da noção de começar a existir uma característica objetiva do mundo.

O resultado, então, é uma defesa completa do Kalam, não apenas uma descrição. A primeira premissa preserva a inteligibilidade da existência e evita o colapso em fatos brutos arbitrários justamente no lugar onde a explicação é mais exigente.

A segunda premissa é sustentada por argumentos clássicos contra passado infinito, desde Filópono no século VI e al Ghazali no século XI, e é reforçada por pressões vindas da cosmologia moderna sobre completude passada em cenários de expansão.

A conclusão segue com necessidade lógica, e a análise do tipo de causa é guiada pelo próprio significado de universo e de começo real, com a Teoria A como moldura mais congruente para a noção de devir e de adição sucessiva que sustenta o argumento.

 

LEITURA RECOMENDADA

ARBEZEN, A.; Borde, A.; Vilenkin, A.; Guth, A. Inflationary Spacetimes Are Not Past-Complete. arXiv, 2001. Disponível em: https://arxiv.org/abs/gr-qc/0110012.

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DUNCAN-JOHNSON, R. Cosmological Argument. In: STANFORD ENCYCLOPEDIA OF PHILOSOPHY. Stanford: Metaphysics Research Lab, 2002-. Disponível em: https://plato.stanford.edu/entries/cosmological-argument/.

HALL, A. R. Infinite Regress Arguments. In: STANFORD ENCYCLOPEDIA OF PHILOSOPHY. Stanford: Metaphysics Research Lab, 2004-. Disponível em: https://plato.stanford.edu/entries/infinite-regress/.

KIRK, G. S.; RAVEN, J. E.; SCHOFIELD, M. Time. In: STANFORD ENCYCLOPEDIA OF PHILOSOPHY. Stanford: Metaphysics Research Lab, 2000-. Disponível em: https://plato.stanford.edu/entries/time/.

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McGREAL, S. (Org.). The Foundations of Modern Cosmology. Londres: Palgrave Macmillan; Londres: Macmillan Press, 1985. DOI: 10.1007/978-1-349-04154-1. Disponível em: https://link.springer.com/book/10.1007/978-1-349-04154-1/.

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